Um dos assuntos preferidos dos blogs esportivos em dezembro foram as sedes das futuras copas do mundo, dada a escolha da FIFA pela Rússia em 2018 e pelo Qatar em 2022, ignorando países como Inglaterra, Portugal, Espanha, Japão e Estados Unidos.
O que a maioria dos comentários comparativos se esqueceu de observar é que as próximas copas do mundo não serão na Rússia e no Qatar e sim, respectivamente no Brasil, na Rússia e no Qatar, a “nossa” copa do mundo precisa e muito ser levada em consideração antes de fazermos qualquer observação sobre outras sedes, mas antes de falar por mim vou tentar usar a cabeça muito sã de Joseph Blatter.
É chover no molhado o termo “a FIFA esta atrás de novos mercados”, tão clichê quanto evidente. Vivemos não apenas na era do dinheiro, mas especialmente na era das negociações, para fazer dinheiro não é necessário apenas desenvolver o melhor produto, mas sim, gerar condições para que qualquer pessoa seja um possível cliente, analisar a escolha das sedes ou praticamente qualquer outra escolha corporativa ignorando essa tese vai acabar resultando em muita frustração.
Em minha opinião, não há nada que tire o encanto do evento que será feito realmente pelos jogadores que nele atuarem. Para nós espectadores um bom nível técnico significa uma boa copa, do contrário não. Quisera eu viver os tempos em que os melhores momentos das copas eram vividos dentro de campo e não apenas em cerimônias de abertura, elefantes brancos com mais capacidade do que precisam e a empolgação da torcida local.
É óbvio que Copa do Mundo envolve, além do futebol, a riqueza cultural do país anfitrião, o turismo daqueles que decidem passar esse mês na sede, alegria que extrapola o apito inicial ou final do juiz, dentre outros e isso tudo gera dinheiro, muitíssimo dinheiro, fato para o qual a FIFA está atenta e cobiça acima de qualquer outra coisa, quanto mais os distintos povos do planeta se interessarem e investirem no futebol, mais mercados e conseqüentemente, mais dinheiro o próprio esporte arrecadará, é possível criticar, condenar jamais.
Blatter e seus fies escudeiros cometeram apenas um erro grave, quase inadmissível, o capricho inédito de escolher a sede de duas copas num mesmo momento. Tivessem as candidaturas européias para a copa de 2018 sido trabalhadas com exclusividade nesse ano de 2010, muito menos polêmica teria sido criada. O mundo não estaria “condenado” a 8 anos de isolamento em longínquos países sem nenhuma tradição futebolística, ninguém se atentaria para essa “busca de mercados” com a escolha exclusiva da Rússia, deixassem o Qatar para depois, para mim não há absolutamente nada de errado, contraditório ou condenável na escolha dos russos como sede.
A nomeação conjunta manchou não apenas a FIFA ao deixar claro sua sede pelo maior número possível de territórios, manchou a própria copa da Rússia, deixando a aparência de que o país fora escolhido exclusivamente para fugir ao óbvio e ao convencional. Como se a Rússia não fosse um país em franco desenvolvimento e não tivesse condições totais de receber uma boa copa, como se na Rússia não houvessem clubes de expressão e torcida suficientes para povoar os estádios após o evento, como se do gelo não tivessem surgido grandes jogadores, de Yashin a Arshavin, e desde a União Soviética eles não embalassem grandes campanhas, inclusive com um 4º lugar em 1966, copa em que o Brasil fora eliminado na primeira fase.
Por mais que a Espanha esteja com moral elevadíssima, ainda mais associada à Portugal, a Holanda e a Bélgica formasse um dupla de valor e principalmente a Inglaterra (primeira a ser eliminada), tenha criado a melhor candidatura da ocasião, ninguém foi páreo para os russos que chegaram a esnobar a nomeação com a ausência do presidente Putin à Zurique no momento do anúncio. Apenas em duas décadas, ou seja, 5 copas, duas vezes elas foram sediadas pela Europa ocidental, azar de ingleses e espanhóis que não tentaram reorganizar a copa antes que França e Alemanha o fizessem e não haveria nada mais repetitivo que insistir nesses quatro países. Eu dou parabéns à Rússia.
O post acabaria aqui, mas sou obrigado a também comentar a nomeação do Qatar, essa sim recheada de polêmicas. Foi nomeado um país onde seis, eu disse, seis estádios serão na mesma cidade, que faz calor de 50 graus no verão sob o risco de alterar a data da realização da copa prejudicando o calendário atual, um país que nunca, jamais disputou uma copa e sem contar os vários embates culturais do oriente- médio envolvendo álcool, mulheres, homossexuais e outros que não discutirei por não querer ser preconceituoso e desconhecer amplamente o país comentado.
Se essas barreiras culturais serão derrubadas, o grande problema é mesmo o baixo nível futebolístico desse mesmo Qatar e sua inexistente tradição. É agressivo demais por conta da FIFA apostar em um país que praticamente desconhece o futebol (apesar da entidade a tempos investir num presidente na mesma situação), deixando a dúvida se realmente a copa “cabe” no Qatar e se as autoridades e população estarão dispostos a se adequar às necessidades dos verdadeiros fãs desse esporte, pois não se recebe ninguém em nossa casa sem nos adequarmos a esse visitante.
Do outro lado da polêmica o Qatar passa com sobras e é aí que torna-se importante lembrar que a próxima copa é de fato no Brasil. Faltam três anos para recebermos o evento e praticamente não há avanço em relação as obras, os estádios mais adiantados são aqueles que foram demolidos, os que serão construídos não passam nas diversas instâncias, as empresas e os políticos lutam por interesses pessoais, o caos aéreo insiste em nos revisitar, os aeroportos são pequenos, o serviço hoteleiro, insuficiente, o policial comum é quase sempre corrupto ou despreparado e a violência um problema visível. Sinceramente, isso tudo pode gerar um repúdio tão grande quanto aqueles que citei ao criar o Qatar, sem contar no fato de que, dinheiro, grandeza e espetáculo brotam como petróleo no oriente médio, o que me leva a crer que teremos lá uma copa de grandes proporções e um espetáculo fora das quatro linhas, ponto para eles.
O alento brasileiro é a copa da África, um mega sucesso comercial mesmo com as mesmas denúncias envolvendo atrasos e abismos sócias no país, se o Brasil é o país do futebol e dentro de campo é o mais antigo dos mercados, desejo de tantos que criticaram a FIFA, não duvidem que antes de 2014, enquanto, em cima da hora precisaremos correr para fechar os últimos detalhes, Rússia e Qatar já tenham um avanço considerável nos seus projetos para quatro e oito anos depois. O jargão “boa sorte Brasil” não vale mais apenas para dentro de campo.
Sugestão: Faça análises de jogadores e times atuais e seleções do tipo "pior de todos os tempos" "melhor da decada/ano"
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