Chega nessa quarta- feira a informação de que, dirigindo alcoolizado Adriano perdeu sua carteira de motorista. Seria uma informação boba se tratasse de muitos outros jogadores, mas no caso de Adriano é uma noticia especial.
Especial por que o caso de Adriano, o mais midiático dentre tantos outros é uma fonte rica para observações psicológicas e sociológicas tratando de ascensão social, salário de jogadores, solidão e futilidade do mundo contemporâneo, entre outros.
A opinião mais natural é sempre a de condenar (“ele é um mau caráter”) ou aplaudir o jogador (“ele é rico, tem mais é que curtir mesmo”). O que deveríamos ficar atentos é que a situação envolve problemáticas muito mais sérias e complexas do que a simples conduta individual.
É impossível, num post de blog, discutir o assunto com a relevância teórica que ele merece, vou tentar, a partir de uma apresentação e análise dos fatos permitir que o leitor desenvolva sua própria percepção sobre o assunto.
Como o assunto não é pura e simplesmente o futebol, não vou partir do principio que todos saibam exatamente quem é Adriano e qual sua importância para o futebol e para o post de hoje. Adriano é um jogador de futebol que iniciou sua carreira no Flamengo, teve uma passagem de sucesso pela Itália, Flamengo de volta e até seleção brasileira. Hoje, novamente na Itália é jogador da Roma, ou melhor, compõe o elenco da Roma, pois raramente entra
em campo. Adriano nasceu no Rio de Janeiro e foi criado na região da Penha onde fica o conjunto de favelas do Alemão, historicamente um dos mais tomados pelo tráfico e pelos criminosos.
Nossa realidade exterior define quem somos, disse Marx em uma de suas passagens mais felizes, que tipo de formação uma realidade dessas pode gerar numa criança? O que é crescer cercado pela imagem de sucesso de um chefe do tráfico, ouvindo seu pai dizer que você precisa ser honesto, receber dos criminosos ajudas especiais no caso de doenças e ter um sistema organizado de controle dentro da favela enquanto os agentes da lei esbanjam falta de preparo e violência em cada ação policial na comunidade. Como aceitar um mundo que exige trabalho e mérito vendo que é impossível trabalhar mais do que seus pais e que eles nunca terão a vida que o discurso geral promete.
Pode parecer banal, mas nesse caso existem três alternativas, se juntar a figura heróica do traficante, seguir o exemplo dos pais e apodrecer na favela ou ter um talento especial como futebol ou música. Uma peneira de futebol para milhares de garotos vai muito além do sonho pessoal de ser um jogador de futebol, é a necessidade e a chance, provavelmente a única que terão em toda a vida, de criarem algo maior do que receberam.
Adriano é assim, passou no teste no Flamengo, foi campeão da Mercosul pelo Fla em 2001 e logo estava jogando na Inter de Milão, em 2003 já fez parte do grupo que disputou a Copa das Confederações com a amarelinha. Ascensão rápida, improvável até, de repente, do menino da favela que enfrentava todo tipo de conflito, ele se tornou o astro, a referência, o exemplo a ser seguido, mais uma prova de que o esforço recompensa a qualquer um, de maneira igual, como manda a cartilha do sistema.
E os amigos que ficaram na favela? E aqueles que ele não pôde trazer pra Itália, perdidos no mundo das drogas? E, o mais surpreendente, como fica a saudade do lugar em que ele foi criado, das suas raízes, do local que construiu a sua identidade? Não é fácil perceber a subjetividade por trás do problema, não é atoa que mais jogadores já tiveram problemas assim, para quem não gosta dele Adriano é um fanfarrão, só quer saber de bebida e mulheres, para os outros, ele precisa curtir mesmo, está ganhando dinheiro e pode viver a vida bem.
Adriano é apenas o exemplar mais problemático, aquele que não conseguiu reunir num mesmo pacote os desejos de uma vida de privilégios com a carreira de jogador, se observarmos, a maioria dos grandes astros do futebol europeu tem conduta parecida. Cristiano Ronaldo já acabou com um luxuoso carro novo em alta velocidade, Rooney e Ashley Cole já tiveram problemas com excesso de bebidas, Ronaldinho se tornou a muito um ex- craque sempre associado a problemas de disciplina, para mim, demorou a voltar ao Brasil.
Para ser muito sincero não condeno de maneira alguma a postura disciplinar de cada um, com a vida economicamente feita, disciplina não passa de um problema a quem não tem nenhuma outra grande ambição. Adriano é honesto, não tem nenhuma outra grande ambição, sente alegria de jogar pelo Flamengo, onde se motivou mais e rendeu melhor em 2009 e já anunciou o desejo de voltar, a Roma não lhe traz nenhum envolvimento que extrapole o financeiro, e dinheiro ele já tem, melhor ainda, poder receber o salário que recebe em Roma podendo curtir férias no seu amado Rio de Janeiro quando quiser.
Adriano foi, é e sempre será um jogador medíocre, aclamado como um dos grandes centroavantes do mundo, Adriano só fez viver altos e baixos, em minha opinião por duas razões principais, a primeira é que Adriano motivado é apenas um jogador forte com facilidade pra vencer zagueiros no corpo e chutar bem com a perna esquerda, e SÓ com a canhota mesmo. A segunda é que Adriano se desencantou pelo mundo do futebol depois de algum tempo convivendo com ele e eu não lhe tiro a razão. Como eu já havia dito no post das sedes das copas, vivemos a era do vazio, tudo é cada vez mais superestimado, suntuoso e repleto de luxo e cada vez mais ausente de conteúdo, estava pensando esses dias enquanto lia a lista dos indicados ao Oscar que não comentarei por ainda não ter visto os filmes, todos recém lançados, mas a cerimônia, cada vez mais pomposa vem sempre apresentando filmes piores ano após ano, cria-se um espetáculo visual como Avatar, travestem-no de mensagens sobre preservação e querem que a gente engula que é uma grande obra, não é.
O que pode ser mais vazio que o mundo ilusório da moda, da realização instantânea, das grifes, jóias? Qual é o sentido de respeitar limites de velocidade num carro 007 que chega a sei lá quantos km em segundos? Que prazer existe em transformar a pecaminosa Las Vegas numa rotina de vida, cercado de prostituição e jogos?
Sim, os amantes da moda estão indignados, os de velocidade me acham ignorante, o da diversão, um louco absoluto. Tudo isso pode parecer convidativo durante um período, ainda mais pra quem nunca os teve, mas depois de um tempo vivendo nesse meio, como o fez Adriano, considero natural que a pessoa comece a procurar um significado para aquilo tudo. Depois de anos em que a realização da mercadoria não é mais uma ambição distante, em que basta desejar e obter é natural que a pessoa procure um significado para aquilo tudo e eu insisto na pergunta, qual é a alegria de, ao longo da vida, seu maior prazer ter sido possuir um pedaço de pano ou metal com um desenho que o diferencia? Que me perdoem os consumistas, mas roupa só serve pra vestir, carro só serve pra locomover e sexo é bem melhor quando se gosta.
Adriano já chegou a cogitar o encerramento prematuro da carreira, queria voltar a viver na favela, o deslumbramento passou. E passa mesmo, os grandes prazeres do mundo moderno são superficiais demais, rasos, pobres, para um jogador atualmente, se ele não encontrar, de fato, a alegria de vestir a camisa de um time, honrá-la, se ele não se arrepiar ao ouvir milhares de pessoas gritando seu nome, se não s empolgar em visualizar seu nome estampado nas páginas de jornais repleto de elogios a sua última atuação, esse jogador se tornará um Adriano e viver no meio dos “maiores encantos” do mundo, usando-os não como razão para ser feliz, e sim como um refúgio por não ser.