Não dá pra passar batido pelos confrontos entre Barcelona e Real nas próximas semanas, sensacionais até pelo fato de estarem organizados de maneira crescente em emoção, primeiro aconteceu pelo campeonato espanhol valendo nada ou pouquíssima coisa, hoje pela copa do rei, vale um título, mas que nenhum torcedor vai rançar os cabelos se não ganhar, por fim os dois jogos pela Liga dos Campeões, esses sim ferozes onde vamos ver ambos os times tentando aquilo que tem de melhor.
Como a rivalidade entre os dois clubes se tornou internacional, surgem no Brasil os mais diversos comentários, simpáticos ou contrários a cada um dos times, odiando ou adorando Mourinho, Messi, esse ou aquele. Eu ainda acho impressionante que alguém consiga contestar esse Barcelona ou o trabalho de José Mourinho, já acho terrível ouvir aqueles que dizem que técnicos são supervalorizados e que quem ganha ou perde são (só) os jogadores, ou aqueles que atribuem retranqueiro como um adjetivo de eliminação de quaisquer méritos que um treinador tenha.
José Mourinho é retranqueiro? As vezes sim, pela necessidade das circunstâncias, é difícil não ser retranqueiro contra o Barcelona atualmente, principalmente para quem pretende vencê-los, deixar Messi e Xavi soltos é a receita para assistirmos um belíssimo futebol, cheio de gols e possivelmente goleadas históricas... Para o Barcelona e Mourinho obviamente não pode se contentar com isso. O Real Madrid andou sendo goleado pelo Barcelona justamente porque quis jogar de igual para igual e não há jogo de igual para igual contra o Barcelona, o time catalão É SUPERIOR. Como era superior à Internazionale que os eliminou graças ao trabalho de Mourinho, ou alguém imagina a Inter de Leonardo vencendo o Barça? Imagina o Schalke goleando a Inter de Mourinho?
Concordo apenas com quem diga que do outro lado do “Real de Mourinho” há o “Barcelona de Guardiola”, o técnico catalão também merece destaque justamente por formar uma das equipes mais exemplares dos últimos anos ou décadas, a seleção do país se baseou nela para jogar (e vencer) a Copa do Mundo. Da mesma maneira que acho o Barcelona fantástico e praticamente imbatível, acho que o esquema de jogo de Guardiola não é nada além de uma retranca disfarçada, ao invés da marcação atrás do meio de campo é feito a mesma coisa no campo do adversário e quando tem a posse de bola, sono. Sim, sono, o jogo de toque de bola exagerado do Barcelona as vezes chega a dar sono, escrevi sobre isso num posto alguns dias atrás, o Barcelona valoriza a posse de bola e toca de um lado para outro numa calma irritante, as vezes num preciosismo bobo e, jogando assim, dessa maneira que eu considero absolutamente sonolenta, é o time de maior destaque dos últimos dez anos. Não discordo que o Barcelona seja um timaço quase invencível, até porque concordo que se Mourinho quiser jogar de igual para igual, vai levar outra goleada, mas acho o jogo do Barcelona absolutamente sonolento, muito ao contrário dos que pensam que Barcelona e Espanha são exemplos perfeitos de futebol arte. Não são.
Na contramão, também não ignoro que Mourinho use esquemas muito defensivos em alguns grandes jogos, mas aplaudo a capacidade sensacional que ele tem de fazer seus esquemas se transformarem em resultados, coisa que todos os técnicos do planeta, retranqueiros ou não fazem, nunca conseguindo. Nos últimos anos só Guardiola e o seu Barcelona, a “retranca” de Mourinho e o jogo de aplicação máxima de Alex Ferguson conquistaram, de fato, destaque no mundo esportivo.
Não dá para ignorar o poder que os técnicos têm no futebol moderno, uma demissão não é mais preciosismo ou falta de planejamento, é necessidade de resultados de um futebol moderno e competitivo como o próprio mundo do trabalho. Mourinho conseguiu com a Inter o que nem Rafa Benitez, nem Leonardo conseguiram e já levou o real mais longe do que tantos técnicos tentaram. Seus times não são retranqueiros, são competitivos, é diferente, por exemplo, do “dunguismo”, o x treinador da seleção brasileira abdicava dos jogadores de maior talento na clara opção por aqueles de maior obediência tática e funcionalidade técnica, acho que Dunga sim ofendeu os torcedores brasileiros com sua maneira de armar a seleção, enchendo o time com Felipe Melo, Josué, Elano, Gilberto Silva, Julio Batista, jogadores simplesmente funcionais que pouco acrescentavam criativamente ao time e tornavam o jogo amarrado e péssimo. Mourinho não o faz, o que deve acontecer é dar uma função tática aos craques do time justamente por saber o óbvio, eles precisam ter a bola para desequilibrar. Também não condeno Muricy ou Felipão, Muricy pegou um time do São Paulo muitíssimo limitado do meio de campo para frente e o tornou campeão por três anos seguidos, nenhum outro técnico o faria com jogadores como Dagoberto, Borges, Aloizio, Jorge Wagner, Richarlysson e o próprio Hernanes, excelente jogador, mas que nunca confirmou seu cacoete de genial. Felipão pegou um Palmeiras totalmente desacreditado, precisando de peças e quase sem poder contar com Valdivia e o tornou competitivo o suficiente para sonhar com qualquer título que dispute, o que deveriam fazer? Não serem retranqueiros e assistirem passivos a derrota de suas equipes? Parreira sempre teve uma filosofia para seus times de futebol, posse de bola, futebol é ter a bola e tocá-la de pé em pé até que ela possa ser arrematada ao gol, não é exatamente o que o Barcelona faz? Porque o Barcelona é genial e Parreira apenas um técnico retranqueiro? Não gosto do Parreira porque para mim ele tem ume estilo de jogo tão chato quanto o do Barcelona e da seleção espanhola e gosto de Mourinho porquê ele sabe fazer o inferior virar superior dentro de campo, independente das armas que precise usar, um time retranqueiro é um time que só sabe jogar de um jeito, onde não há improviso nem plasticidade, não era o caso da Inter, não é o caso do Real.
Alguém pode querer me atacar de torcedor do Real aqui, mas muito pelo contrário, caso eu torça para alguém nesses confrontos, CASO EU TORÇA, será pro Barcelona e única e exclusivamente por causa do Messi.
Agora tendo passado o marasmo do confronto pelo campeonato espanhol, as três disputas seguintes deverão ser de primeira cm uma receita bem simples, o Barcelona vai impor seu jogo como sempre faz e Mourinho será obrigado a marcar e marcará porque quer vencer, o Real tem peças para sufocar o toque de bola catalão e puxar contra ataques mortais assim como o Barcelona tem qualidade para furar o bloqueio merengue e vencer, o toque de bola é repetitivo até que a bola chegue ao pé de Messi ou Xavi, o espanhol resolve com um passe bem feito, o argentino desequilibra sem nem precisar tocar para outro em alguns momentos, Cristiano Ronaldo, Ozil e DiMaria para desespero dos anti retranqueiros terão funções táticas muito bem definidas em campo, porque, para desequilibrarem, como podem, eles vão precisar ter a bola nos pés em algum momento do jogo, não adianta que pensem apenas em ir pra frente aguardando que por mágica a bola venha parar em seus pés, isso seria condenar o Real a jogar com jogadores a menos mais uma vez, como sempre tem acontecido, de maneira justa aliás, a expulsão de Albiol foi justíssima.
Prever um resultado é a missão impossível, fazer isso em qualquer clássico já é difícil, num Barcelona e Real nos dias de hoje é ainda pior, esqueçam.
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